quinta-feira, 1 de abril de 2010

Amália Safatle
De São Paulo


Com o clima batendo à porta, entrando pelas casas na forma de enchentes, nos cobrindo os joelhos na mais branda das hipóteses, ou nos desidratando em forma de insolação, o assunto do aquecimento global já não é mais distante e nem parece tão técnico.

Nevascas nos Estados Unidos, mortes por frio mundo afora, calorão que um dia desses elegeu o Rio de Janeiro como a cidade mais quente do planeta. Com causas locais e/ou globais, ou mesmo circunstanciais por fenômenos como o El Niño (potencializado ou não por fatores globais), a mudança do clima está na pele.

Ainda assim, não foi possível encontrar uma agenda comum entre povos, por meio de seus representantes reunidos na última cúpula do clima, para amenizar um problema ao mesmo tempo tão longe - pelo seu alcance -, e tão perto.

O que será, então, da agenda da biodiversidade? Antes da COP 16 do clima, a ser realizada no México, Nagoya, no Japão, sediará em outubro a COP 10 da biodiversidade (a 10 ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica). Um artigo publicado na revista Nature, em 24 de setembro do ano passado (nº 461), mostra como a questão supera, um termos de extrapolação dos limites físicos da Terra, até mesmo a questão climática.

Não que sejam assuntos estanques: a mudança do clima impacta diretamente na diversidade biológica do planeta e essa perda, por sua vez, não só torna os ecossistemas menos preparados para enfrentar as alterações climáticas como as acentua.

Fato é que a taxa de extinção das espécies é estimada de 100 a 1000 vezes mais alta do que poderia ser considerado um ritmo natural, em uma velocidade nunca vista desde a última extinção em massa (a última foi denominada de K-T, mais conhecida pela extinção dos dinossauros, e que levou ao extermínio de 60% da vida na Terra, segundo a Wikipedia). O que está acontecendo agora é a chamada extinção do Holoceno, com causas essencialmente antrópicas.

Menos fácil de ser compreendida em termos econômicos como a questão do clima (na qual já existe, por exemplo, um mercado de créditos de carbono em funcionamento e consolidação), a biodiversidade e a tragédia de suas perdas não parecem ser tão sentidas na pele humana. Nunca a nossa espécie contou com uma expectativa de vida tão alta e tanto conforto, propiciados pelo avanço da ciência, da medicina, da tecnologia.

Assim, talvez não soe tão óbvio o vínculo entre a necessidade de conservação das espécies, o bem-estar e a sobrevivência humana. Como convencer as pessoas de que o vínculo é mais forte do que pode parecer? De que todo esse conforto, essa oferta de alimentos e medicamentos não devem durar para sempre, mantido o ritmo de destruição? De que perdas importantes de vida estão acontecendo mesmo agora, ou já ocorreram, antes que pudéssemos pesquisar e descobrir seus valores?

Os aspectos morais e ainda mais essencialmente o amor gratuito pela vida da Terra em toda a sua diversidade, por si só, já deveriam sensibilizar e mover as pessoas em prol da conservação. Mas sabemos que o gênero humano age, sobretudo, por interesse próprio. E nem esse interesse próprio aparece tão visível e palpável. Eis aí o grande desafio de mobilização e de comunicação para a COP da Biodiversidade.

Mas o problema da perda brutal de biodiversidade também bate à porta. Nossos parentes mais próximos na escala evolutiva estão à beira da extinção - revela novo relatório elaborado pela IUCN (União Mundial para a Natureza) e pela Sociedade Internacional de Primatologia, em colaboração com a ONG Conservação Internacional.

O trabalho mostra que quase metade de todas as espécies de primatas está em perigo de extinção e lista as 25 espécies de primatas mais ameaçadas do planeta, entre macacos, chimpanzés, gorilas, lêmures e outros. São apontadas como principais ameaças aos primatas a destruição das florestas tropicais, o comércio ilegal de animais silvestres e a caça comercial.

Nesse ritmo de extinção em massa que engloba além dos primatas todas as espécies do mundo, a questão certamente já passou da água pelos joelhos.

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