domingo, 4 de abril de 2010

Biodiversidade é hoje um dos termos científicos mais conhecidos e divulgados em todo o mundo. Em menos de 15 anos de existência, entrou no vocabulário de uso geral. Deveria, portanto, ser um conceito muito bem estabelecido e definido mas, pelo contrário, não é ainda bem compreendido por muitas pessoas, inclusive por cientistas. Neste texto, quero mostrar como surgiu este conceito e explorar um pouco seu significado.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O valor da biodiversidade

Paulo Coutinho

Qual o valor da biodiversidade? Se imediatamente pensamos que uma quantidade de dinheiro, mesmo extremamente elevada, é a resposta, fizemos uma equivalência; haveria assim uma possibilidade de compararmos dinheiro a algo tão complexo. Se igualamos a biodiversidade - e há quem fale em "capital natural" - a um estoque qualquer de um produto ou matéria-prima, haveria uma comparabilidade que nos permitiria expressá-la em unidades monetárias. Esse raciocínio está baseado no pressuposto da indiferença na perspectiva de um consumidor individual: dado um montante de dinheiro disponível, um consumidor, supostamente bem informado e, portanto, racional, escolheria entre os bens e serviços necessários para sua satisfação.

A biodiversidade, quando apresentada como apenas um estoque não diferenciado de outros recursos econômicos, estaria sujeita a racionalizações como a apresentada. Se trocamos o dinheiro do consumidor individual por um certo patamar de desenvolvimento econômico chegamos mais perto de questões discutidas internacionalmente desde o início dos anos 70. O objetivo, para muitos, seria alcançarmos uma "escolha ótima" entre determinado nível de desenvolvimento econômico, expresso em expansão da produção (PIB) e a preservação ambiental. A idéia, nem sempre explícita, de que a Amazônia deveria apresentar um desenvolvimento "com o máximo de preservação possível" esclarece o mecanismo que opõe crescimento econômico e manutenção da biodiversidade como escolhas a serem de alguma forma equilibradas em uma "decisão ótima".

Com o estabelecimento da comparabilidade entre dinheiro ou desenvolvimento econômico - que pode ser expresso em unidades monetárias - e a preservação ambiental, abre-se a possibilidade de medir em dinheiro a manutenção total ou parcial de ecossistemas e, por fim, mesmo da biodiversidade. A que tipo de conclusão pode levar esse raciocínio explicita-se com as discussões sobre o efeito estufa e a análise de alguns economistas: não faltaram aqueles que apontaram para o fato de que a economia americana depende muito pouco de sua produção agrícola e que, portanto, o impacto causado por eventuais mudanças climáticas seriam também pouco importantes, pois acarretariam uma pequena queda na produção total dos Estados Unidos. Mesmo que a produção agrícola nesse país fosse reduzida à metade, o impacto seria relativamente pequeno; só faltou a esses economistas a percepção de que sem alimentos todo o resto da produção estaria comprometida, pois os americanos ainda comem.

Se os mesmos economistas fizessem um cálculo de quanto seria necessário de manutenção da atual biodiversidade para manter a atual produção agrícola mundial poderíamos chegar, por inferência, a um valor monetário da manutenção de todos os ecossistemas da Terra. Se a Amazônia, por exemplo, responde parcialmente pela manutenção do equilíbrio climático planetário, então gera um benefício para fora de suas fronteiras; alguns economistas chamam a isso de uma externalidade positiva. O valor financeiro dessa externalidade poderia ser assim calculado porque estaria expresso na manutenção das condições de produção de riqueza fora da Amazônia. Uma conclusão a que já se chegou com esse raciocínio é de que os habitantes da região deveriam ser pagos para a manutenção desse "serviço" prestado pela floresta.

Esses procedimentos seriam válidos se tomássemos a riqueza gerada na produção de bens e serviços como algo comparável e substituível pela biodiversidade. E aí entramos no meio de um intenso debate que mobiliza há décadas governos, ONGs e instituições internacionais. Determinadas perdas em "quantidades" de biodiversidade podem nos levar ao fim de ecosssistemas inteiros, o que seria uma perda irreparável. A biodiversidade não é um estoque qualquer; não tem substituto perfeito nem aproximado. Ainda inúmeras espécies não foram nem mesmo catalogadas, quanto menos avaliados seus eventuais usos. Não temos, assim, a possibilidade de uma "escolha racional", já que tratamos de algo desconhecido. Escolher entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental não guarda nenhuma semelhança com a escolha entre sapatos e camisas. O princípio que deve prevalecer aqui é o da precaução, dado nosso desconhecimento.

A biodiversidade não é homogênea como um estoque de trigo ou de televisores. Em todo o planeta, os ecossistemas são únicos e apenas parcialmente comparáveis. A complexidade da biodiversidade não nos permite pensá-la em quantidades ou partes e, ainda mais, como não há nenhuma segurança quanto ao funcionamento de sistemas extremamente complexos como a Amazônia - se podemos dizer que a Amazônia "funciona" - não se sabe qual seria o ponto de devastação a partir do qual o desequilíbrio poderia levar à completa degradação ou colapso desse ecossistema: não conhecemos o ponto de "não retorno". Supormos que há escolha entre produção de riqueza econômica e a manutenção da biodiversidade pode nos levar a equívocos extremamente graves.

Mas, enfim, a biodiversidade não tem um valor? Se pedimos às pessoas para dizerem quais são seus valores podemos eventualmente ouvir que é ser muito rico; mesmo para essas pessoas (e para aquelas que pensariam mas não ousariam dizer) o dinheiro estaria relacionado como um meio para possuir bens e serviços relacionados ao bem-estar material, associados a uma vida feliz ou, pelo menos, mais feliz. Ainda assim, um milionário trocaria todo seu patrimônio por água potável se estivesse perdido em um deserto.

Trata-se, quando falamos de biodiversidade, da manutenção da vida, não de uma espécie ou de uma proteína que a indústria farmacêutica eventualmente possa retirar de vegetais utilizados há milênios por uma população tradicional. Se a indústria, neste caso, patenteia o conhecimento de uma tribo da Amazônia e consegue medir o lucro apurado, o valor dessa planta para um pajé, no entanto, continuaria sendo outro: a preservação da cultura de seu povo. A biodiversidade, muitas vezes mantida e conhecida em seus segredos por povos em todo o planeta por milênios, pode ser fonte para um valor financeiro apurado em balancetes. Mas a manutenção da vida na Terra, tem um valor que não pode ser apurado por um raciocínio contábil ou financeiro qualquer, por melhores que sejam seus computadores e seus modelos de análise.

A biodiversidade tem um valor intrínseco: trata-se de mantermos as condições de permanência da vida; é, portanto, incomensurável. Senão, que medida usaríamos para medi-la? Número de espécies, fluxos de energia, unidades monetárias ou qualquer outra medida pode nos dar algumas referências parciais. Não conseguimos atribuir um valor financeiro à nossa própria vida, ainda que as companhias de seguro façam lá suas contas. Essas mesmas empresas, no entanto, não se arriscariam a fazer seus cálculos para a vida no planeta - assim esperamos - pelo absurdo de que com o fim da biodiversidade não teríamos ninguém para receber ou pagar o prêmio do seguro.

Paulo Coutinho é economista, mestre em Ciências Ambientais e doutorando em Ciências Sociais (Unicamp)
Amália Safatle
De São Paulo


Com o clima batendo à porta, entrando pelas casas na forma de enchentes, nos cobrindo os joelhos na mais branda das hipóteses, ou nos desidratando em forma de insolação, o assunto do aquecimento global já não é mais distante e nem parece tão técnico.

Nevascas nos Estados Unidos, mortes por frio mundo afora, calorão que um dia desses elegeu o Rio de Janeiro como a cidade mais quente do planeta. Com causas locais e/ou globais, ou mesmo circunstanciais por fenômenos como o El Niño (potencializado ou não por fatores globais), a mudança do clima está na pele.

Ainda assim, não foi possível encontrar uma agenda comum entre povos, por meio de seus representantes reunidos na última cúpula do clima, para amenizar um problema ao mesmo tempo tão longe - pelo seu alcance -, e tão perto.

O que será, então, da agenda da biodiversidade? Antes da COP 16 do clima, a ser realizada no México, Nagoya, no Japão, sediará em outubro a COP 10 da biodiversidade (a 10 ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica). Um artigo publicado na revista Nature, em 24 de setembro do ano passado (nº 461), mostra como a questão supera, um termos de extrapolação dos limites físicos da Terra, até mesmo a questão climática.

Não que sejam assuntos estanques: a mudança do clima impacta diretamente na diversidade biológica do planeta e essa perda, por sua vez, não só torna os ecossistemas menos preparados para enfrentar as alterações climáticas como as acentua.

Fato é que a taxa de extinção das espécies é estimada de 100 a 1000 vezes mais alta do que poderia ser considerado um ritmo natural, em uma velocidade nunca vista desde a última extinção em massa (a última foi denominada de K-T, mais conhecida pela extinção dos dinossauros, e que levou ao extermínio de 60% da vida na Terra, segundo a Wikipedia). O que está acontecendo agora é a chamada extinção do Holoceno, com causas essencialmente antrópicas.

Menos fácil de ser compreendida em termos econômicos como a questão do clima (na qual já existe, por exemplo, um mercado de créditos de carbono em funcionamento e consolidação), a biodiversidade e a tragédia de suas perdas não parecem ser tão sentidas na pele humana. Nunca a nossa espécie contou com uma expectativa de vida tão alta e tanto conforto, propiciados pelo avanço da ciência, da medicina, da tecnologia.

Assim, talvez não soe tão óbvio o vínculo entre a necessidade de conservação das espécies, o bem-estar e a sobrevivência humana. Como convencer as pessoas de que o vínculo é mais forte do que pode parecer? De que todo esse conforto, essa oferta de alimentos e medicamentos não devem durar para sempre, mantido o ritmo de destruição? De que perdas importantes de vida estão acontecendo mesmo agora, ou já ocorreram, antes que pudéssemos pesquisar e descobrir seus valores?

Os aspectos morais e ainda mais essencialmente o amor gratuito pela vida da Terra em toda a sua diversidade, por si só, já deveriam sensibilizar e mover as pessoas em prol da conservação. Mas sabemos que o gênero humano age, sobretudo, por interesse próprio. E nem esse interesse próprio aparece tão visível e palpável. Eis aí o grande desafio de mobilização e de comunicação para a COP da Biodiversidade.

Mas o problema da perda brutal de biodiversidade também bate à porta. Nossos parentes mais próximos na escala evolutiva estão à beira da extinção - revela novo relatório elaborado pela IUCN (União Mundial para a Natureza) e pela Sociedade Internacional de Primatologia, em colaboração com a ONG Conservação Internacional.

O trabalho mostra que quase metade de todas as espécies de primatas está em perigo de extinção e lista as 25 espécies de primatas mais ameaçadas do planeta, entre macacos, chimpanzés, gorilas, lêmures e outros. São apontadas como principais ameaças aos primatas a destruição das florestas tropicais, o comércio ilegal de animais silvestres e a caça comercial.

Nesse ritmo de extinção em massa que engloba além dos primatas todas as espécies do mundo, a questão certamente já passou da água pelos joelhos.

terça-feira, 23 de março de 2010